X, Y, Z
press release

O corpo de trabalho de Marco Pires e em particular no campo do desenho desenvolve-se segundo um movimento dialéctico de tese e anti-tese ou de afirmação-negação. Esta práctica parte da utilização e recontextualização de documentos e imagens que o artista vai recolhendo para depois intervencionar, suspendendo os seus atributos científicos e introduzindo camadas de novas possibilidades e leituras, numa dimensão onde o erro, a hesitação e a deriva emergem. Esta recontextualização de elementos pré-existentes encontra um paralelo na práctica do détournement (desvio), que antes ainda de ser sistematizada e estudada nos textos da Internacional Situaccionista tinha surgido décadas antes com o uso da collage, introduzida por Picasso no início do sec. XX e reutilizada pelos dadaístas e surrealistas misturando textos, pinturas e imagens de toda e qualquer proveniência numa tentativa de subversão dos valores estéticos burgueses da época. Não é esta obviamente a intenção de Marco Pires, até porque historicamente a práctica do détournement como subversão evoluiu e acompanhou as revoluções sociais e artísticas, fundido-se na história da música com o punk e o do-it-yourself, acabando por ser absorvido pelo sistema capitalista que questionava.
O que é relevante para Marco Pires é a recuperação de um sistema lúdico que advém da possibilidade de desenvolver novos paradigmas baseados em relações e associações nos objectos e documentos de onde parte, negando e simultaneamente dando a ver de novo, criando novas leituras.

A série de desenhos de pequeno formato e as pinturas homogéneas de formas geométricas e monocromáticas sobre fotografias dão corpo a este estudo sobre o desvio. Os primeiros num registo tenso de linhas que relacionam elementos orgânicos e geométricos. As segundas, pinturas monocromáticas sobre fotografias apagam os documentos geográficos que permanecem por baixo.
Na segunda sala, em “3 Monocromos, da série O mapa de Bellman’s” encontramos no título uma referência directa a um conto de Lewis Caroll, “The hunting of the Snark” (A caça ao Snark) de 1876. O capitão que empreende esta caçada fornece à sua tripulação um mapa para auxiliar a condução da tarefa. Absurdamente este mapa apenas representa mar, ilustrando literalmente o vazio. Uma superfície uniforme, uma página em branco. Para Stefan Kanfer este poema existencial e absurdo representa a agonia da humanidade perante a ausência de coordenadas, que conduz à sua deriva. Esta busca fundamental para o homem, esconde o horror do seu falhanço.

A série de trabalhos intitulada “Topoi” é apresentada nesta exposição na forma de um livro contendo 14 fotografias a cores, duas delas impressas e em exibição na parede e na projecção de um diapositivo. “Topoi” é o plural de topos, expressão de origem grega que no início da década de 60 serviu a Alexander Grothendieck para definir um objecto matemático que auxilia a identificação de um lugar, suportado pela sua teoria de “étale cohomology”.

Segundo o artista esta série representa uma evolução no seu processo de trabalho. Até aqui pautado por modelos de pesquisa-investigação, trabalho de estúdio, entendido como laboratório que não lida directamente com os seus objectos de estudo. Esta série promove agora incursões directas, cuja materialização encontra na fotografia o meio mais privilegiado para o fazer. Este exercício prevê incursões pedológicas, psicogeográficas, ou ainda registos de estúdio. Podemos encontrar um objecto de design industrial, tipos de vegetação ou solo, estruturas de comunicação ou transporte, extracção de matéria prima, uma habitação ou um retrato, criando um atlas de imagens que constituem um índice do meio físico e social à semelhança das ilustrações científicas presentes nos antigos livros de geografia.



White Lies

statement

O conceito de "white lies" associado ao estudo da cartografia foi introduzido por Mark Monmonier, geógrafo que adopta uma posição crítica sobre a evolução do mapa e revela algum cepticismo sobre a manipulação produzida por alguns destes modelos da realidade. Segundo Monmonier, um mapa constrói uma representação alicerçada em distorções deliberadas, preterindo a exactidão e a verdade para melhor dar a ver o essencial.

Tendo em conta esta noção, o mapa empreende uma abstracção espacial e desenvolve uma linguagem que permite comunicar e analisar dados. É desta base que nascem os chamados cartogramas, que para além do levantamento topográfico de uma determinada área lhe adicionam informação de acordo com a distribuição, ocorrência ou intensidade de diversos fenómenos. “Cartogramas são distorções aplicadas de forma propositada a um mapa de acordo com uma variável externa à geografia do mapa”, refere James A. Dougenik (1985).

É de acordo com esta prática da construção dos cartogramas que se desenvolve esta série homónima. Numa tentativa de recontextualização de documentos que correspondem a antigos mapas de solos, informação já em si desactualizada, exerço uma fragmentação das estruturas espaciais segundo um jogo de descontinuidade, rasura e subtracção. Esta acção oculta determinadas áreas e por consequência enfatiza outras, em particular as destinadas às legendas do documento, que assim perdem o seu referente para a massa formal e descontínua de um monocromo que habita agora cada mapa.

A série cadernos pretos parte de pequenas páginas de cadernos moleskine impressas com fracções de mapas, intervencionadas com vários materiais, desde riscadores a manchas de óleo que re-desenham cada documento num jogo de tensão e rasura. Um exercício de intenções furtadas que descolam da realidade. Projecto, hesitação, erro, direcção e deriva desenvolvem uma linguagem autónoma que concorre com a topologia dos mapas de onde emerge, sugerindo um reposicionamento referencial e espacial. Estas páginas são então fotografadas e impressas em grande formato.